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26.5.10

O Sonho do Cabeceta

isto acaba de sair de uma noite de estudo imensamente disperso. ainda não decidi se lhe vou dar futuro ou fim


Ah, homem, nó cego de cristal com medo de se riscar.
Ah, estátua de marfim com medo de se rasgar.
Ah, vinho de Midas com medo de evaporar.
Ah, medo, perdão, homem...

Um cavaleiro sem cabeça cavalga um cavalo sem patas. Ninguém, repito, ninguém vive sem cabeça. Quanto a cavalos não sei, este cavalga sem patas.
Mas a Morte não passou pelo cavaleiro sem cabeça; na verdade, evita-o a todo o custo nas suas viagens rotineiras, evita cruzar-se com ele, evita a sua visão longínqua e o seu odor a viscoso. Quanto ao cavaleiro, esse, está riscado, nos bordos do pescoço pálido de marfim, rasgados por alguns centos de fábulas; notam-se crostas de sangue nojento e coagulado onde se acumularam poeiras dos séculos passados num nomadismo em nada boémio. Por dentro, salta à vista o cheiro nauseabundo da carne esverdeada do seu pescoço muscularmente decepado. A sua montada estropiada mostra uma pelagem salpicada por manchas, minto, crostas de sangue e imundície vertidas pelo tão querido e literalmente desmiolado amo.

Ah, mas que faz este cabeceta riscando as páginas deste caderno?

Habita meus pesadelos colado a mim, em meus sonhos fazendo-se notar apenas ao longe. O sem-cabeça, sem a qual não se pode viver, garantiram-me!, continua a aparecer onde antes eu via uma casa, onde estava um limoeiro, onde em tempos esteve um amigo. Surte nos figurantes do meu subconsciente um pânico irreal, induzindo-lhes instantaneamente a queda maçãnica da gravidade, um tombo que os verte nos degraus superiores da existência. Isola-me, sem cenários nem iluminações no único local onde não sei entrar nem sair, evapora qualquer guião, e empurra-me para o chão. O sem-cabeça e seu potro amareloso atropelam-me, pisoteiam-me, cospem-me e babam-me e despenteiam-me. Dá cabo de mim, que grande desafio que esse é. Faz-me chorar sonhos arquivados de quando os coleccionava como cromos. Vai cantando, como não sei. Cânticos de um guerreiro sem rumo e sem preço, um tão longo que se esfumou e outro tão elevado quanto uma cabeça o pode ser. Brinca ao berlinde como o miúdo que é, miúdo em tamanho grande, berlindes em tamanho grande. Berlindes? Cabeças. De inimigos quedos, vítimas inocentes, eu sei lá, e ele não deve saber também. Volta-se de lado mas sei que me olha. Reúno todas as forças do meu corpo, do meu sonho, para suster aquele olhar sem olhos, e não fujo, até porque não há cenário neste sono, ele atmosferizou tudo, e tudo caiou de preto, um preto tão preto que nem preto é: é morte, cor de morte. Mas a Morte não cavalga junto do cavalo tetraperneta. Não, não é morte este sonho. Este sonho é a sua ausência, sua negação. Ausência de sonho, tortura da mente. É a cor do fundo, do chão, do céu, das nuvens, se as houver. O cabeceta atira para mim um dos seus macabros berlindes, que apanho, ficando a fitar uma nuca no meu regaço. Viro-a. Acordo num grito seco. Não há olhos fitando os meus. Há um momento atrás havia, há um momento atrás fitava meu próprio esgar de decepado.

25-05-2010

11.8.09

o Barqueiro Pálido e Imberbe (1)

Havia um miúdo perto das docas, entre uns quantos como ele. Ele distinguia-se dos miúdos das docas: estava descalço como alguns dos outros, tinha uma camisa apesar dos outros terem todos umas camisolas roídas; a diferença estava nos olhos: o miúdo tinha uma missão.
Brinca miúdo, passeia esses pés descalços, escava o interior da tua mente antes que ela se vire contra ti.
A Lua chega cedo, ainda durante o dia, partilhando com o Sol um rectângulo limitado de céu. Chega a miúda e o miúdo vê-a, seus olhos inocentemente felizes como só os de um miúdo podem ser. Trocam umas palavras, o miúdo e a miúda. Ela veio calçada, e tem um vestidinho da mesma cor que a camisa dele. Dão as mãos e avançam para o cais.
Cheira a mar cansado; cansado de si e cansado de ser usado; está a precisar de uma longa noite de descanso, o mar. Os dois miúdos avançam pela madeira do cais até pararem defronte a um barco. O barco é negro, seus contornos misturar-se-iam com a noite mas o Sol ainda brilha numa aresta de Céu. Olham-se e adivinham que vão mesmo fazê-lo. Do nada, está à sua frente o Barqueiro, Pálido e Imberbe, que lhes fala com uma voz que nada tem a ver com ele, por ser calma e marsupial, e lhes diz: Crianças, não está na hora de irem para as vossas casas? Decerto os vossos pais já se perguntam por vós...
É ela quem responde: Mas senhor, nós queremos ir no barco.
O Barqueiro Imberbe e afável, com o pôr-do-sol lunar nas costas, olha-os como se fossem sobrinhos. Ele sabe que tem de os deixar entrar, essas são as regras do jogo, mas não quer quebrar os miúdos, cuspir-lhes na infância e assassinar seus sonhos. Ooh, os sonhos... Dissuadir, é o que vou fazer, pensa o Imberbe: Não sejam tolinhos, toca a ir embora! Era estranho, ele era magro e esquelético, pálido, imberbe, e vestia de negro com um fato que talvez tivesse sido impecável há anos. [Só há anos?] O negro realçava a sua palidez. Mas em vez de uma voz cavernosa e demoníaca, ou arrastada e moribunda, ou louca e esqueletal, tinha uma voz paternal e suave e ingénua, como se mantivesse a sua infância viva nalgum recanto obscuro da sua massa óssea. Não lhe assentava esta voz, ou melhor, seria a única coisa que verdadeiramente lhe assentava, que este Imberbe tem bom coração.
Mas os miúdos insistiram, queriam ir juntos, queriam viver no mar que na terra não gostavam, e o Pálido Imberbe teve que os deixar entrar, eram as regras do jogo.
Tantos anos antes, um homem vestido de negro tinha também aceite um miúdo a bordo. Um miúdo ridiculamente pálido. A esse não tinha sido dado nenhum aviso. Agora, o Barqueiro Pálido e Imberbe chora com as pernas pálidas mergulhadas no mar velho, a Lua dominando completamente o mesmo rectângulo de céu que vira chegar este negro barco. Um destes dias é a Lua Cheia, pensa o Barqueiro, fitando a Lua e deixando a sua palidez misturar-se com a dela. Como gostaria de ser a Lua.
Quando o barco partir nunca mais cá voltarão. Só ele, o barqueiro, vem a terra quando o barco infernal, que se alimenta de sonhos, aporta num qualquer cais. Como é que dois miúdos abdicam dos seus sonhos assim? Sem sonhos, os miúdos serão apenas almas penadas condenados a uma vida na maresia. Ter-se-ão apenas um ao outro para apoiar as costas, quando forem eles contra o Mundo. O Imberbe nem isso teve.

26.6.09

Ennui

A cinza sabe-me a solidão. Empoleirado na varanda, pasmo, absorvido pelos quotidianos alheios, o cheiro do dia comum já não me é estranho.

Está um dia normal, um tempo normal, com nuvens normais e sol normal a espreitar normalmente entre elas. Apesar da normalidade, sinto-me anormalmente escondido na varanda, frio como se uma daquelas nuvens normais tivesse atravessado o meu corpo. Eu contra o Mundo, normal.

O fumo tresanda a abandono. Outrora teria sido parte do dia normalmente nublado, com uma rotina normalmente arquitectada às minhas necessidades normais. Agora não, estou desajeitado, aparentemente. Quero apenas sair desta normal pasmaceira, que alguém dela me tire, que alguém venha directo à minha aorta e a encha de heroína, talvez me faça saltar. Saltar normalmente.

Nem sinto a queimadura, só um ligeiro cheiro a carne queimada. A última tentativa de, sozinho, me recriar. De, sozinho, me erguer e saltar. Não saltei, fiquei apenas a olhar para a ponta incandescente e a marca nas costas da mão. Não deu, não dá. Largo-a, ficando a olhar para a corrida até ao chão entre o fogo e a água. Nada normal.

20.5.09

BFL

Teu peito é o meu lar
Esconde-me aqui,
Escuda-me.
Eles querem arrancar-me cabelo, arranhar-me a cara.
Esconde-me, protege-me.

[When the fires came the smell of cinders and rain perfumed almost everything]


Arruma-me no nosso céu, azul, salpicado de ramos das árvores.
Encostadinho a uma nuvem branca
(São nómadas, as nuvens, decerto não se importam,
escondem-me de certeza)

[Just kids in the eyes of the storm]

Fita-me com esses teus olhos, e não deixes nada, nada, por dizer.

[When I run in the dark into a place that's lost]

Porque no fim,
eles não me arrancam cabelo.
Não me arranham a cara.
Nós, nós sorrimos.

Debaixo do nosso céu azul, salpicado de ramos das árvores próximas.

23.3.09

Pena


Ontem sonhei um poema
Uma pena esculpia-o mesmo à minha frente,
Era delicioso.

Mas acordei. E nesse momento lembrava-o. Depois perdi-o nalgum canto obscuro dentro de mim, arrumado entre idiotices.
Foi uma pena perdê-lo assim.

Num momento via-o, num momento fui aquele doce poema, esquecendo-o sem me aperceber.
No momento seguinte estava esquecendo-o criminosamente sem sequer o tentar lembrar.
No próximo momento, enquanto ele se esvaía, eu nem o segurava, nem continha a hemorragia.
Agora perdi-o.
Perdi-o, até ao próximo sonho inspirado.
Mas que pena.

20.12.08

DRÖM

Ouço a madeira velha à minha volta
O tédio escala pelo meu ser
Por vezes atento a uma palavra solta
Mas meus olhos abertos não estão a ver

Neste ambiente pantanoso
Sonho descaradamente
Enquanto o tempo, vagaroso
Se vai arrastando pela gente

E enquanto lá no centro
Se gritam obscenidades
Meu espírito, cá dentro
Vagueia por inúmeras cidades
Interessado e atento
A ténues particularidades

Desfilam pessoas, casas e cores;
Revejo faces, actos e dores;
Seja em campos repletos de flores
Ou enquanto assisto a horrores

Até que chega Cronos, descontente
Com a minha desatenção permanente
E com uma cacetada potente
Mostra-me que toda a gente
Abandona o lugar para que outro se sente.


(sonhos)

17.10.08

E Tu Não

Do topo do penhasco fito as ondas,
Vêm e vão.
Momentos de translucidez enquanto ecoam a sua morte contra as rochas.
São efémeras, magia líquida.

Do topo da falésia fito as ondas,
Vêm e vão.
Uma qualquer força da Natureza, invejosa da sua graciosidade, lança-as contra os rochedos, e elas, cegamente indiferentes, avançam ignorantes para o seu fim.

Do topo do penhasco fito as ondas,
Umas vêm, outras não.
São aquelas, pobres sortudas, cúmplices de assassínio, alheias a intrigas, que buscam o repouso final na areia das praias, entregando as suas pares às tenazes das divindades.

Do topo da falésia fito as ondas
Vejo-as a vir, vejo-as a ir, vejo-as a nascer, vejo-as a morrer.
E Tu não.

12.7.08

GCWBNW

Nasce o Velho, aprende a ser Velho. Na sua existência macilenta notam-se as marcas de outrora: da sabedoria e do fracasso, do riso, do choro e da dúvida - múltiplas cicatrizes interligadas, sulcando a face do Velho.

O Velho não é o mais Velho numa geração de cinco, mas entre os seus irmãos não há percurso tão longo ou tortuoso. Nas suas sandálias poeirentas e erodidas escondem-se percursos e vidas, do passado em que o Velho avançava confiante através de tundras ou desertos, montanhas ou sonhos.

No entanto, os seus irmãos não o ouvem. Dizem preferir tentar percorrer os seus próprios percursos, encerrar as suas histórias nos rostos, prender as suas existências. No entanto, são as histórias do Velho que tatuam nos corpos carnudos.

No seu trono, o Velho observa, de olhar rapino atrás do nariz altivo. As suas cicatrizes brilham, numa estranha onomatopeia de vermelho-sangue contrastante com a tez macilenta na sua face. Ao seu redor, os irmãos fitam as lajes poeirentas do chão. Retalharam-se criminosamente, e é sangrando que todos, um por um, pedem ao Velho o seu perdão e indulgência. Afinal, os seus caminhos não eram mais do que réplicas dos do Velho, afinal deveriam ter seguido os seus próprios caminhos, aprender pelos erros do Velho.

O Velho não se mostra piedoso, abandonando os irmãos enquanto se ri cinicamente. Neste seu percurso, acaba de rasgar novamente a pele da face. No fim, apenas o sangue flui. E Velho e irmãos seguem os seus percursos, odiando-se.

3.11.07

CONTEMPLO

Contemplo. Implosão. Verde.
Calmaria, pantanal.
Vida sem rede. Livre.

Esgrimem-se ofensivas, esboçam-se estratégias, estrangulam-se pedaços.
Anémonas tentaculares esperam um banquete necrófago.

A pequena e terrível vingança decorre, mas o mal continua, a estupidez continua.

E a contemplação. Continua .

17.10.07

SIBLINGS

És uma lembrança turva. Uma ténue luz assassina. Um instante azul de brevidade. Falta-me sentir a tua falta, aqui e agora.

Choves em mim. Gostas de o fazer, de me molhar com as gotas mais gélidas, só para te prestar um pouco de atenção. És catedral, mesquita e pagode, és todo o impossível que não foste. Resto-te eu e, afinal, sinto a tua falta. Toquemos juntos aquele nosso piano.


28.8.07

"No meu princípio está o meu fim. Em sucessão "



Abrigo-me de toda a calma
Rugem trovões de passividade lá fora
Mas aqui, neste meu aqui
Penso nos pomares que outrora me abrigaram e abrigo-me nestas memórias petrificadas
Recortes escuros esvoaçam no silêncio vegetal; Maçãs escorregam das suas casas num súbito desejo de adrenalina, partindo todos os ossos na queda; Sulcos crepitam, cheios de água, enquanto as rãs saúdam novos ciclos.


Volto a mim
Ao meu aqui
Lá fora, a tempestade ataca com nova vaga de calmaria
Sepultado no meu abrigo suplico
A todos os deuses E panteões E demónios E dragões
Que me abriguem

O meu sangue borbulha como mil explosões, infantil no seu terror
Fecho novamente os olhos, tentando trazer de volta os campos do outrora

Em vez disso, as pedras coradas pesam sobre mim. A luz toca as minhas mãos, afagando as pontas dos meus dedos.

Levanto-me

Reina o silêncio do caos.

"A aurora aponta, e outro dia se dispõe ao calor e ao silêncio. Para lá do mar o vento do amanhecer enrola-se e desliza. Eu estou aqui, ou ali, ou noutra parte. No meu princípio. "



Made in Barcelona


Photo by Mines Oliveira