17.9.14


A correr, a correr, a correr na escuridão de uma floresta tão densa, tão densa, que sei que é dia lá fora mas o sol não passa pelas copas.
Um grão, outro grão, mais um grão de areia a atravessar uma qualquer ampulheta sádica do sádico que aqui me pôs, numa floresta de incertezas em que a única certeza são as árvores, os troncos grandes e imóveis e imortais e castanhos? Devem ser, mas não os vejo - quem me dera ser um tronco destes.
Uma gota, duas gotas, uma gota de novo. Uma gota de chuva na minha testa, que se divide no nariz, e que se chora cruzando a minha cara até se (re)unir no queixo. Duas lágrimas que não são minhas, porque já nem disso sou capaz - a floresta é muda, morta e escura, e como se não chegasse é rude e não responde aos meus gritos. Perdi literalmente os sentidos, até àquela primeira gota, e à segunda. E às que se seguiram.
E não, não vi o céu, não vi nuvens nem sol. Mas quando ela se estilhaçou na minha testa soube que não as tinha sonhado, que não eram uma fantasia de uma criaturinha de floresta. Ouvi-as a cair em mim e senti a frescura de estar vivo de novo. Uma gota, duas gotas, outras tantas no meu corpo. Lágrimas, agora acho que são lágrimas, a correr com as gotas pela bochecha abaixo.


Pego num ramo, e noutro ramo, e subo e corro pela árvore acima, sempre com gotas, vivas de chuva, a molhar-me o cabelo e a barba. Uma gota, outra gota, mais uma gota a inundar uma qualquer ampulheta sádica. E mais um ramo.

E chego ao topo. Onde uma nuvem, solitária, sob um Sol ou uma Lua (que já nem os sei distinguir), chora em mim. E não há tempo a perder - é a minha nuvem. Por isso salto para ela. Quem não prefere ser chuva a ser um tronco?

26.05.2014

2.9.13


Sinto-me arroz, sou cocaína.

Vem, deixa-me ler os versos que te mancham as costas; vou-te massajar as dores, e quando achares que te passaram vou parar.



Porque estou aqui, arrozado, sem saber que fazer de mim, e o teu sorriso desconcerta-me. Estou a mil à hora e não saio do sítio, tenho uma sinapse encravada e trânsito mental, bonecas de luxo, affairs e textos proibidos, promiscuidades e heranças. Enquanto tudo me entope e tudo verte pus no meu cérebro, teu cabelo ruivo, tua testa branca e teu sorriso de quem sabe o que quer antes de lá chegar.
Eu sei pouco, pouco. Sei-te a ti hoje, talvez não amanhã. Ando a viver aos soluços, a dar passinhos de marioneta - tenho um arquivo com meus passos que revejo todos os dias, calculando a minha rota amanhã. Pseudo-pessoa? Há quem o diga - cuspo-lhes na cara.



Deixo-me arrastar no marasmo, estou bêbado de mim. Sim, bêbado, sinto o meu travo acre a vermute e detesto como me saibo. Porque não me saibo a vermute, como um dia soube. Não, não ressacarei de mim amanhã. Porque se fui vermute, sou agora chá verde. Se fui coca, não passo agora de acompanhamento de bife para a barriga da burguesia.


[14.12.2010]

4.2.13

TREASON

A música era barulhenta e electrónica, e teimava em compactar o fumo que pairava na sala em cubos e pirâmides. Olhares e sorrisos esquivavam-se a esta moldagem geométrica. Entre gargalhadas e faux-insultos, os dois passavam o tempo e o Cosmos ria, sádico. Eles esgueiravam mais do que os sorrisos e as piadas entre as arestas de fumo. Enquanto aqueles dois riam e dançavam e anteviam o que se adivinhava (e o Cosmos sabia) que fosse acontecer, um terceiro elemento sai ferido e magoado, como se todos os polígonos de fumo lhe fossem arremessados em simultâneo, e todo o fumo ainda apenas fumo lhe fosse bombeado directamente para o sangue.

Que egoísta parece ele ao Cosmos, triste e raivoso pela aparente felicidade fugaz dos dois boémios. Que mesquinho da parte dele odiá-los quando só fazem o que todo o homem faz. Que patético invejá-los enquanto se deixa ficar em casa, num plano que vai cumprindo demasiado escrupulosamente de esvaziar congelador e frigorífico.

E eles, que insensíveis parecem aos olhos do Cosmos! O Cosmos vê todos os seres existentes e eles ignoram propositadamente uma existência por um motivo tão ignóbil como a satisfação das necessidades mais primitivas. Que idiotas, a perder tempo com todo um jogo de sedução perfeitamente dispensável porque desde que puseram os olhos um no outro que sabem o que vai acontecer. E que falta de jeito para a dança!


 
Lá em baixo, protegidos por pele e osso da visão omnisciente do Cosmos, os corações dos três suspiram de inveja. Todos queriam ser fumo, compactável e dispersável. Todos gostavam de não ter já tantas nódoas negras, por tanto darem luta. E gostavam de parar com todas estas cambalhotas, que impedem o seu correcto recobro até à recuperação total das suas capacidades. Lá em baixo, todos os corações querem parar. Todos, o do Traidor, o do Trocado e o do Terceiro.

3.9.12

Bonfires by the beach. Tribal. Rave costeira. Alucinam juntos. Dançam nus. Tocam tambores. Começa a chover.

E, num momento, deixa de ouvir os tambores; num momento percebe que vai ser descoberto; num momento todo o medo do mundo se concentra num ponto à sua frente e como que lhe parte as pernas, e ele verga-se meio morto sob a sua consciência: vão descobrir o seu segredo se ficarem à chuva.

Chove.
Continua a dança. Tribal.

Dançam nus entre grãos de chuva, sementes de algum deus maior que pelas leis dos antigos estará a tentar fecundar novamente a Mãe Terra, tentando corrigir este erro que a povoa.
Dançam entre os deuses.
Lantejoulas afiadas caem-lhes em cima. Parece que os deuses estão mesmo a tentar corrigir os erros do passado.
No início, são gotas laminadas, cortantes. Mas à medida que caem cortam o sangue aos banhistas, e vão-se vestindo com ele, competindo umas com as outras em número de cortes feitos, número de sangues vestidos.

E eles sangram, e sangram.
O estrangeiro dança enquanto sangra um líquido espesso e verde.
O soldado sangra púrpura, completamente cortado nos braços e no peito.
O casal jaz nalgum lado, preso num beijo sanguinolento: ele sangra amarelo, um fio gotejando da têmpora a traçar-lhe a cara; ela sangra azul, um azul muito claro, e sangra tanto que à volta deles se parece chover um mar coralino.
O vagabundo também sangra, e sangra em tons de castanho e laranja.
Os estudantes sangram azul profundo e verde hipócrita, as putas azul profundo e rosa interesseiro.
 
E, vendo-os a todos, ele vai dançando, nu como eles, e vai-se esquivando às lâminas vítreas que caem do céu. E continua, saltando entre chuvas, e salpicando os pés com sangues.
De repente, pisa uma poça de vidros no chão, mesmo ao pé de um estudante drogado, deitado contra um tronco, jorrando copiosamente verde e com a cara parabolicamente virada para cima, presa num sorriso. 
Cortou-se na planta do pé.
E bastou um segundo sem dançar, um segundo sem o acordar adrenalítico e constante do medo, um segundo em que o seu pé foi mais importante que o seu segredo: um segundo de pausa, e choveu-lhe na face. E no braço. E agora na barriga. Vê como se de relva a crescer se tratasse: um vidro triangular e afiado a passar-lhe obiquamente, cortando-o sob as costelas, na direcção do umbigo. E enquanto corta a carne tenra do seu ventre, surge um líquido à superfície, numa tonalidade...branca? Branca...

O seu segredo revelado.

Ele, como outros (já queimados) antes dele, e outros depois, sangra branco. Um pecado que os deuses apreciam, porque os cortes não lhe doem. Mas que os terráqueos, coloridos sanguíneos, castigam. O estudante drogado e despido vê-o, vê-o e sorri. Ele cai de joelhos, entregue ao seu destino. Mas o estudante só sorri, drogado e despido e estuporado. Toca na poça de sangue branco, molha o dedo nele, como é sedoso este sangue! Leva o dedo à boca, molhando os lábios com o sangue albino do medroso aberrante, entregue ao medo. Ele vê-se, cortes brancos sobre a pele de tijolo que o deserto lhe dera, de joelhos, no escuro. Sente um foco de luz sobre ele e sabe que é o medo. E decide sair das trevas.

Ergue a cabeça. Chove à sua volta, mas muito menos. O aguaceiro vai acabar, e quando isso acontecer já cá não estará. Segura nas mãos a cabeça do estudante drogado, despido, estuporado e sorridente; afaga-lhe o cabelo negro. Beija-o na boca e surpreende-se com a correspondência. Beija-o na boca e surpreende-o com um estilhaço na jugular. Deita-o de costas, limpando as mãos sujas de verde e azul e branco, e foge a correr, nu e manco. Soubera proteger o seu segredo

(13/06/2011)

21.4.12

Estão a chover sorrisos.

(não me quero abrigar)




I have suffered shipwreck against your dark brown eyes
I have run aground against your broken down smiles